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Entrevista a PAULO GONÇALVES MARCOS
Co-autor do best seller Marketing Inovador
"O esforço de internacionalização deve ser acompanhado do reforço das capacidades endógenas de avaliação e mitigação de risco"
O sector financeiro português está numa boa fase, em termos de internacionalização, e tem sabido aproveitar essas oportunidades?
O
momento actual é de grande convulsão nos mercados financeiros
internacionais. As crises combinadas do “subprime”, alimentos e energia
fizeram com que os mercados tivessem fortes quebras, primeiro, e uma
grande volatilidade, mais recentemente. Dentro deste panorama poderemos
dizer que o sector financeiro português tem resistido bastante bem,
melhor que a maior parte dos sistemas congéneres na Europa e nas
Américas. A internacionalização do sector financeiro português tem-se
orientado para mercados e segmentos onde existe uma vantagem
comparativa de cariz concorrencial. Assim, países onde as empresas
portuguesas tenham uma forte base instalada produtiva ou comercial
(Angola, Espanha, Brasil) ou possuam afinidades culturais e
civilizacionais (Cabo Verde, por exemplo) ou onde o grau de
desenvolvimento dos mercados pode proporcionar que as empresas
portuguesas introduzam técnicas de gestão ou marketing mais sofisticas
(Polónia, Roménia, Ucrânia, Argélia, entre outros), têm sido os alvos
preferenciais do notável esforço de internacionalização encetado desde
meados da década de 90. E aqui o que vemos é um padrão de
internacionalização de cariz estratégico mais que a mera tentativa de
aproveitar mercados de destino de emigração. A aposta em serviços de
elevado valor acrescentado (gestão de activos, private e corporate
banking, investment banking) ou no domínio dos factores estratégicos de
concorrência (redes de retalho, com a sua proximidade e conveniência) é
a marca da nova internacionalização do sector financeiro português.
Na
sua opinião, quais são os pontos que Portugal tem a seu favor nesta
internacionalização? E os que tem contra e precisa de melhorar?
Pontos
fortes: excelente capacidade técnica na banca de retalho (marketing,
sistemas de informação, vendas) e na banca de aconselhamento (private e
affluent banking, Project finance, Corporate finance); boa relação com
as empresas portuguesas mais dinâmicas e com maior foco na
internacionalização; flexibilidade e adaptabilidade de gestores e
especialistas técnicos portugueses.
A menor dimensão da Economia
Portuguesa, em geral, bem como a menor reputação que as suas empresas e
produtos usufruem nos mercados mundiais são obstáculos à
internacionalização do sector financeiro português.
Quais as celeumas que pode acarretar esta internacionalização para um mercado financeiro como o português?
A
internacionalização resulta de uma busca de segmentos de mercado, em
outras geografias, onde as empresas portuguesas tenham capacidade de
transportar conhecimentos ou outro tipo de sinergias. E deverá ter,
como resultado, melhores rendibilidades dos capitais próprios, logo,
maior capacidade de atrair e remunerar capitais ao nosso país. Para uma
pequena Economia aberta ao exterior, como a portuguesa, a
internacionalização surge com um imperativo estratégico para o
desenvolvimento económico que almejamos. E temos vários exemplos de
outras pequenas Economias que têm aproveitado singularmente o fenómeno
da globalização e da internacionalização para prosperarem. Claro que
teremos que reter que existem alguns riscos, como a exposição a riscos
do país ou riscos sistémicos de magnitude diversa. E para isso o
esforço de internacionalização deve ser acompanhado do reforço das
capacidades endógenas de avaliação e mitigação de risco.
Ao que devem estar atentas as entidades financeiras (bancos, seguradoras, etc) nesta internacionalização?
Dada
a falta de dimensão relativa das instituições portuguesas, a ênfase
terá que ser na especialização e na transferência de competências de um
mercado altamente desenvolvido como o português, para outros mercados e
segmentos onde o nível de especialização ou sofisticação não é tão
intenso. Mais do que a busca por quotas de mercado, a
internacionalização deve orientar-se por critérios de rendibilidade.
A
internacionalização pode ser considerada um “móbil” de risco para o
desenvolvimento de banco e/ou seguradora, tendo em conta que os
objectivos possam passar por uma rentabilidade quase imediata que pode
ser prejudicial?
Não. Os gestores do sector financeiro
conhecem bastante bem que os projectos de investimento carecem de um
prazo para a recuperação dos capitais investidos. A lógica nunca é de
um retorno imediato, mas sim de uma rendibilidade das operações que
sejam sustentáveis a médio e longo prazo. Portanto, não julgo que os
bancos e as seguradoras portuguesas (mas também as gestores de activos
e de fortunas, as boutiques financeiras, entre outros) padecem de uma
“miopia” de curto prazo.
Que importância atribui à hegemonia da regulamentação, sobretudo ao MiFID, neste processo de internacionalização?
Bastante.
Um dos objectivos políticos últimos da MIFID é o de alargar o Mercado
Único de Serviços Financeiros, alargando o leque dos produtos e
serviços objecto de um verdadeiro passaporte comunitário. Com os
aumentos de concorrência entre prestadores de serviços (de
aconselhamento mas também de plataformas de negociação). Nesse sentido
o fim do monopólio dos mercados regulamentados abre novas oportunidades
ao desenvolvimento do negócio das entidades financeiras. Custos de
transacção mais baixos, como resultado do aumento da concorrência e do
“upgrade” tecnológico dos prestadores de serviços, serão facilitadores
do processo de internacionalização. A utilização do passaporte europeu
pode ser uma vantagem importante dos bancos portugueses, reduzindo a
complexidade do seu processo de internacionalização.
Que desafios se colocam a Portugal, e ao resto do mundo, neste processo de internacionalização do sector financeiro?
A internacionalização coloca vários desafios às instituições, mormente portuguesas. Senão vejamos:
-
a internacionalização é importante para sustentar crescimentos da conta
de exploração quando o mercado doméstico exibe sinais de maturidade e
de concorrência exacerbada;
- o esforço de internacionalização
deve ser visto não apenas ao nível dos requisitos de capital mas também
ao nível dos requisitos sobre a Gestão (novos clientes e concorrentes;
ambientes regulatórios e de Compliance diferentes dos habituais nos
mercados domésticos; expatriação de quadros; desafio de novas línguas e
culturas). Isto dentro duma linha estratégica mais vasta em que apenas
uma adequada rendibilidade de capitais próprios é susceptível de
assegurar a manutenção dos centros de decisão financeiros em Portugal.
O crescimento de activos e de rendibilidade, essencial para preservar a
capacidade estratégica de decisão e acumulação em Portugal, requer, sem
dúvida, o continuar do processo de internacionalização. Diria que é
condição necessária, conquanto não suficiente!
In Banca & Seguros #157.
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